A formiga do inferno: um inseto extinto

O termo "formiga do inferno" não engloba uma única espécie. Na verdade, inclui 9 gêneros diferentes com 13 espécies descritas atualmente. Todas elas têm uma adaptação comum: mandíbulas prontas para matar.
A formiga do inferno: um inseto extinto

Última atualização: 02 Julho, 2021

As formigas pertencem a uma família de insetos (Formicidae) que, como as abelhas e as vespas, fazem parte da ordem Hymenoptera. Das 22 000 espécies observadas, apenas cerca de 13 800 foram classificadas, e atualmente nova espécies continuam a ser encontradas a um ritmo vertiginoso. A formiga do inferno, um parente distante das linhagens atuais, é uma das mais curiosas.

As formigas colonizaram todos os territórios do planeta, com exceção da Antártica e de algumas ilhas remotas. São uma parte essencial de qualquer ecossistema, pois respondem por até 25% da biomassa terrestre de origem animal, controlam pragas de invertebrados, promovem a polinização, servem de alimento para predadores e muitas outras coisas. Conheça um de seus parentes junto com a gente.

Descoberta da formiga do inferno

Antes de nos apresentarmos as características desses animais ancestrais, é necessário desvendar a bagunça filogenética em que se encontram. O termo”formiga do inferno” se refere à agora extinta subfamília de himenópteros chamada Haidomyrmecinae. Embora no passado esse táxon fosse concebido como um grupo menor, agora há um consenso no sentido de que se trata de uma subfamília estabelecida.

Esse grupo de formigas ancestrais só foi descrito com a descoberta de 3 registros fósseis: um na França, outro em Mianmar e outro no Canadá. Além disso, em 2020, a descoberta de um fóssil de um espécime caçando outro invertebrado do Cretáceo rendeu muitas informações novas sobre seu modo de vida. A pesquisa, publicada na revista Current Biology, ficou bastante conhecida.

Dentro dessa subfamília, agora desaparecida, são descritos 9 gêneros diferentes, compreendendo um total de 13 espécies. São eles: Aquilomyrmex, Ceratomyrmex, Chonidris, Dhagnathos, Haidomyrmex, Haidomyrmodes, Haidoterminus, Linguamyrmex e Protoceratomyrmex.

Embora ainda tenhamos muito poucas informações sobre alguns desses grupos, a descoberta de novos fósseis deve lançar alguma luz sobre eles.

As formigas do inferno em âmbar.
Um himenóptero preservado em âmbar.

Descrição física e comportamento

Como já dissemos, o termo “formiga do inferno” inclui um total de 13 espécies de formigas ancestrais, que apresentam diferentes adaptações ao meio ambiente e características distintas. Por esse motivo, veremos a seguir alguns dos gêneros mais relevantes dessa subfamília, mas separadamente. Confira!

1. Ceratomyrmex

Até o momento, esse gênero abrange uma única espécie (Ceratomyrmex ellenbergeri) que foi detectada em vários fósseis na região da Ásia, datados do período Cretáceo. Como todos os representantes da subfamília, essa formiga do inferno se destaca por suas estruturas bucais altamente especializadas, em um plano muito diferente do da espécie atual.

Para que possamos nos entender, as formigas carnívoras de hoje têm mandíbulas em um plano “horizontal”. Odontomachus monticola, Odontomachus bauri ou Anochetus ghilianii são alguns exemplos. No entanto, espécimes do gênero Ceratomyrmex apresentam peças bucais em um plano “vertical”, como se fossem peixes abissais.

As operárias encontradas têm 4,5 a 5,9 milímetros de comprimento e carregam um clípeo bem diferenciado, que forma uma espécie de “chifre” projetado entre as duas antenas. As mandíbulas são grandes e acredita-se que eram usadas principalmente para caçar presas grandes, embora também pudessem ser usadas como método de defesa para afastar predadores. Aqui você pode ver seu holótipo.

As formigas Odontomachus são representantes vivas das Trap-jaw. Sua mandíbula está em um plano horizontal.

2. Haidomyrmex

Esse gênero contém 3 espécies diferentes: Haidomyrmex cerberus, Haidomyrmex scimitarus e Haidomyrmex zigrasi. Todas elas foram datados do final do Cretáceo e foram encontradas em vários fósseis da região da Ásia, como indicam estudos.

Os exemplares desse gênero apresentam tamanho variável, de 3 a 8 milímetros, e possuem um exoesqueleto bastante macio. A estrutura de suas mandíbulas, em forma de foice, e seu clípeo conferem um aspecto longo e letal à cabeça, que por sua vez é acompanhada por um par de olhos compostos muito pronunciados.

As particularidades de cada espécie foram descritas, mas em algumas foram encontradas rainhas e em outras não. De qualquer forma, aqui você pode ver o holótipo do gênero, nesse caso da espécie Haidomyrmex zigrasi.

3. Linguamyrmex

Esse gênero também inclui 3 espécies diferentes: Linguamyrmex brevicornis, Linguamyrmex rhinocerus e Linguamyrmex vladi. Novamente, todos os fósseis encontrados datam do final do Cretáceo, na região da Ásia. Eles também têm um clípeo desenvolvido e mandíbulas em posição vertical, indicando que caçavam presas de tamanho considerável, e de frente.

Como acontece no gênero anterior, esse tipo de formiga do inferno tem um par de mandíbulas proeminentes em um plano vertical e curvadas para dentro. Seu comprimento é tamanho que, com a estrutura “fechada”, elas chegam a tocar com o chifre clípeo, conseguindo assim uma câmara de retenção infalível para a presa. Aqui você tem seu holótipo e um detalhe de suas estruturas cefálicas.

Hoje em dia, também existem formigas predadoras letais. O gênero Myrmecia é a prova disso.

Por que sua descoberta é tão importante?

As formigas do inferno são um achado único, pois representam as estruturas cefálicas desenvolvidas no passado pelos ancestrais das espécies que atualmente habitam os ecossistemas. Além de sua descrição, as novas descobertas chegaram ao ponto de descrever como esses fascinantes himenópteros caçavam, nos proporcionando ainda mais insights sobre sua biologia e suas adaptações.

As curiosas mandíbulas dessa subfamília podem ter servido como método de defesa e ferramenta de ataque ao mesmo tempo, já que as estruturas curvadas verticalmente fornecem um excelente mecanismo de preensão. Vamos torcer para que mais fósseis preservados em âmbar continuem a ser descobertos, para nos aprofundarmos ainda mais nas peculiaridades desses mortais e fascinantes himenópteros.

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