Os animais podem ter síndrome de Down?

Existem muitas doenças animais que podem apresentar sinais semelhantes aos da síndrome de Down humana, mas no nível genético, nenhum desses eventos clínicos compartilha uma etiologia.
Os animais podem ter síndrome de Down?

Última atualização: 08 Maio, 2021

A síndrome de Down é uma das doenças genéticas humanas mais comuns, com uma prevalência mundial de 10 casos a cada 10 000 nascidos vivos. Esse evento clínico é bem conhecido em humanos, mas você sabe se outros animais podem ter síndrome de Down?

Estamos perante uma questão complicada, para dizer o mínimo, pois é preciso ter muito cuidado com generalizações e discriminações. Atualmente, a síndrome de Down não é considerada uma patologia propriamente dita, mas um distúrbio do desenvolvimento que envolve diversas características físicas e comportamentais, tão válidas quanto qualquer outra.

Portanto, em vez de pacientes, preferimos usar o termo pessoas “não neurotípicas (NT)” ao falar sobre essa condição, ou seja, pessoas que não seguem um padrão neurológico comum. Uma vez que estabelecida essa importante definição, vamos ver o que acontece com a síndrome de Down no resto dos táxons animais.

O que é a síndrome de Down?

Todas as células humanas – exceto óvulos e espermatozoidestêm 46 cromossomos pareados em seus núcleos, resultando em 23 pares, cada um com um cromossomo da mãe e outro do pai. Temos 22 pares de cromossomos autossômicos e um par sexual, que determina o sexo feminino (XX) e masculino (XY).

Essa condição é conhecida como diploidia (2n), um produto da fusão de 2 gametas haploides (n). Conforme indicado pela Clínica Mayo, as pessoas com síndrome de Down têm uma cópia adicional total ou parcial do cromossomo 21, o que dá origem a 3 cromossomos 21 em vez de 2. Portanto, essa condição também é conhecida como trissomia do 21 (2 + 1).

90% dos casos de síndrome de Down ocorrem devido a um erro durante a meiose, processo durante o qual são formados os gametas masculinos e femininos que, após a fecundação, darão origem ao zigoto. Apenas 4% dos eventos são hereditários, devido a translocações genéticas cujas particularidades não iremos abordar.

Na síndrome de Down, o cromossomo 21 tem uma cópia extra.
Na síndrome de Down, o cromossomo 21 tem uma cópia extra.

A síndrome de Down no mundo animal

Os animais podem ter síndrome de Down? A resposta é clara e categórica: não. Todos os seres vivos têm cromossomos diferentes em número e conformação e, portanto, essa condição é exclusiva dos seres humanos. Por exemplo, os gatos têm 38 cromossomos – 18 pares autossômicos e um par sexual – 8 a menos que o cariótipo humano.

Por outro lado, os cães possuem 39 pares de cromossomos, o que dá origem a um total de 78, sendo 38 pares autossômicos e um sexual. Esse número é muito maior do que o humano. O registro de cromossomos dentro do núcleo da célula pouco diz sobre a complexidade das espécies, mas mostra uma clara variabilidade genética entre os diferentes táxons animais.

O organismo vivo com mais cromossomos é a samambaia Ophioglussum recitulatum, no qual um total de 1260 unidades foram registradas.

Patologias semelhantes, mas não iguais

É claro que em todos os animais existem patologias genéticas que podem se manifestar com características clínicas que lembram a síndrome de Down, mas não têm nada a ver com ela. Por exemplo, o hipotireoidismo em cães – causado pela falta de produção de hormônios tireoidianos na tireoide – se manifesta sinais semelhantes no nascimento.

Um cão com hipotireoidismo congênito nascerá com atraso no desenvolvimento ósseo, dificuldade para a sucção, problemas psicomotores, nanismo, dentição tardia e outros sintomas, dependendo da época de apresentação. Em alguns casos, essa condição tem uma base genética, uma vez que certas raças são mais predispostas a sofrê-la.

Estudos publicados na revista Plos One demonstraram que mutações em certos locus do cromossomo 12 promovem significativamente o aparecimento do hipotireoidismo canino, mas esses eventos genéticos nem mesmo são semelhantes aos da síndrome de Down humana.

Em suma, embora alguns sinais clínicos externos possam ser semelhantes entre as espécies quando se trata de falar sobre certas condições, no mundo da genética certamente não terão nada a ver umas com as outras. A trissomia do cromossomo 21 é exclusiva dos humanos, pois somos os únicos portadores desse cromossomo específico descrito apenas em nossa espécie.

Uma garota abraça um cachorro.

Um pensamento final

Infelizmente, algumas fontes populares tentam chamar a atenção alegando que certos animais e animais de estimação “parecem ter síndrome de Down”. Isso não envolve apenas ignorar dados científicos, mas também desrespeitar todas as pessoas que vivem com essa condição.

A síndrome de Down deve ser normalizada pelo que é: um padrão de desenvolvimento não neurotípico, não uma doença ou um tema sobre o qual se especula para gerar curiosidade. Quanto mais cedo os estigmas das pessoas com mecanismos neuronais diferentes dos nossos forem derrubados, mais cedo poderemos avançar como indivíduos e como sociedade.

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  • Todo lo que no sabías acerca del síndrome de Down, genotipia. Recogido a 31 de marzo en https://genotipia.com/cromosoma-21/
  • Bianchi, M., Dahlgren, S., Massey, J., Dietschi, E., Kierczak, M., Lund-Ziener, M., … & Pielberg, G. R. (2015). A multi-breed genome-wide association analysis for canine hypothyroidism identifies a shared major risk locus on CFA12. PLoS One, 10(8), e0134720.