Como os cães processam as palavras dos humanos?

março 21, 2019
Um novo estudo investiga os mecanismos cerebrais que os cães usam para diferenciar e processar as palavras que lhes dizemos.

Em muitas ocasiões parece que os cães entendem o que lhes dizemos. Mas você sabe como os cães processam as palavras dos humanos?

Os resultados experimentais de um novo estudo sugerem que os cães têm pelo menos uma representação neural rudimentar do significado das palavras que lhes são ensinadas.

O estudo também sugere que os cães diferenciam entre palavras que ouviram antes e aquelas que nunca ouviram.

A pesquisa foi publicada em meados de outubro 2018, na revista Frontiers in Neuroscience, por cientistas da Universidade Emory (EUA).

Este é um dos primeiros estudos a utilizar imagens do cérebro para testar como os cães processam as palavras dos humanos para associá-las com objetos.

Como os cães processam as palavras dos humanos

Os pesquisadores propõem como exemplo um cão que se anima e até corre para uma janela quando ouve a palavra “esquilo”.

O que essa palavra significa para o cachorro? Significa: “preste atenção, algo está acontecendo”? Ou será que o cão realmente evoca a imagem do esquilo em sua mente? Afinal, como os cães processam as palavras dos humanos?

Pesquisadores explicam que muitos donos de cães acham que seus cães sabem o que algumas palavras significam.

Entretanto, realmente não há muita evidência científica para apoiar essa crença. O que eles queriam com o estudo era obter dados dos próprios cães, e não apenas do que dizem seus donos.

Nesse sentido, os pesquisadores reconhecem que o fato de os cães terem a capacidade de processar pelo menos alguns aspectos da linguagem humana é algo já conhecido.

Afinal, os cães podem aprender a seguir comandos verbais. No entanto, pesquisas anteriores sugerem que os cães podem usar outras pistas para seguir um comando verbal.

Entre elas, o olhar, gestos e até as expressões emocionais de seus donos. Por isso, foi interessante saber até que ponto os cães entendem as palavras. Ou seja, como os cães processam as palavras dos humanos.

Como foi feita a pesquisa

Os pesquisadores se concentraram nas questões sobre os mecanismos cerebrais que os cães usam para diferenciar as palavras. Inclusive, eles investigaram o que constitui uma palavra para um cachorro.

Deve-se notar que, para o estudo, foi necessário usar cães treinados para entrarem voluntariamente em um scanner de ressonância magnética funcional (fMRI). Isso porque eles precisavam permanecer imóveis durante o teste, sem restrição ou sedação.

Como os cães processam as palavras dos humanos: experimento.

Estudo de ressonância magnética em cães

Para este estudo, 12 cães de diferentes raças foram treinados para recuperar dois objetos diferentes, baseados nos nomes dos objetos.

No par de objetos de cada cão, havia um com uma textura macia, como um bicho de pelúcia. Além disso, o outro tinha uma textura diferente, como a borracha, para facilitar a distinção.

O treinamento consistia em instruir os cães a procurar um dos objetos e recompensá-los com comida ou elogios. O treinamento foi considerado completo quando um cão mostrava que ele poderia discriminar entre os dois objetos.

Ou seja, quando o cão pegava constantemente o objeto solicitado pelo tutor, enquanto ambos os objetos eram apresentados ao animal.

Durante um experimento, o cão treinado se deitava no aparelho de ressonância magnética. Enquanto isso, o tutor estava em frente a ele, na abertura da máquina.

Então, a pessoa dizia os nomes dos brinquedos do cachorro em intervalos determinados. Depois, ele mostrava ao cachorro os brinquedos correspondentes.

Como controle, o dono pronunciava palavras absurdas e mostrava novos objetos, como um chapéu ou uma boneca.

Análise dos resultados: como os cães processam as palavras dos humanos

Os resultados mostraram uma maior ativação nas regiões auditivas do cérebro para as palavras inventadas em relação às palavras treinadas.

Os pesquisadores reconhecem que esperavam ver os cães discriminarem entre palavras que conheciam e palavras que não conheciam.

No entanto, eles se surpreenderam ao ver que o resultado foi oposto ao da pesquisa em humanos. Ou seja, as pessoas tendem a mostrar uma ativação neuronal maior para palavras familiares em relação a palavras novas.

Mulher conversando com seu cão

Os pesquisadores levantaram uma hipótese para os cães terem uma maior ativação neuronal a uma nova palavra.

Segundo eles, os animais sentem que seus donos querem que eles entendam o que estão dizendo. “Em última análise, os cães querem agradar seus donos e talvez também receber elogios ou comida”, dizem os pesquisadores.

Os cães reagem a palavras

Metade dos cães do experimento mostrou maior ativação pelas palavras novas em seu córtex parietal-temporal. Essa é uma área do cérebro que os investigadores acreditam ser análoga ao giro angular nos seres humanos. Além disso, é nesse local onde as diferenças lexicais são processadas.

No entanto, a outra metade dos cães mostrou maior atividade com novas palavras em outras regiões do cérebro. Inclusive, outras partes do córtex temporal esquerdo e da amígdala, o núcleo caudado e o tálamo.

Essas diferenças podem estar relacionadas a uma limitação do estudo: a variação de raças e tamanhos dos cães, bem como as possíveis variações em suas habilidades cognitivas.

Nesse sentido, os pesquisadores reconhecem que a variedade de formas e tamanhos dos cérebros dos cães em todas as raças é um grande desafio no mapeamento dos processos cognitivos do cérebro canino.

Em relação a isso, os pesquisadores dizem que os cães podem ter diferentes habilidades e motivações para aprender e entender palavras humanas.

Afinal, segundo os pesquisadores: “eles parecem ter uma representação neural do significado das palavras que foram ensinadas a eles, além de uma baixa resposta pavloviana”.

Conclusão

Isso não significa que as palavras faladas sejam a maneira mais eficaz de o proprietário se comunicar com um cachorro.

De fato, uma pesquisa anterior realizada pela mesma equipe mostrou que o sistema de recompensa neuronal dos cães está mais sintonizado com sinais visuais e olfativos do que com os verbais.