Chasco-preto: habitat e características

Essas aves passam por uma muda pós-nupcial completa, na qual renovam toda a sua plumagem entre julho e outubro. Isso as ajuda a se preparar para iniciar o cortejo entre dezembro e fevereiro.
Chasco-preto: habitat e características

Última atualização: 31 Julho, 2021

O chasco-preto é uma ave de tamanho médio que apresenta um dos comportamentos de cortejo mais curiosos do mundo animal. Essa é uma das espécies na qual é possível observar como a seleção natural atua para manter as melhores características adaptativas.

Essa ave pertence à ordem dos passeriformes e utiliza cantos para conquistar os seus pares. Além disso, o gênero a que pertence inclui uma grande diversidade de chascos, mas aqui falaremos especificamente da espécie Oenanthe leucura. Leia e aprenda tudo o que torna essa espécie única.

Habitat do chasco-preto

Essa ave prefere habitats com pouca vegetação, como falésias, despenhadeiros, encostas e ravinas. Podem viver até em prédios abandonados, pedreiras ou represas, desde que existam estruturas altas para que possam fazer seus ninhos.

A sua distribuição se restringe à Península Ibérica e ao Norte de África. Na Espanha, permanece nos sistemas montanhosos do Mediterrâneo, embora tenha preferência por locais secos e com pouca chuva. No inverno, desloca-se para áreas próximas aos trópicos, como o oeste da Andaluzia.

 

Características físicas

O chasco-preto é uma ave de 18 centímetros de comprimento, com coloração marrom-escura em todo o corpo, enquanto na cauda se destacam penas brancas. Além disso, no final das penas da cauda há uma espécie de margem, tipo “T” invertido na cor preta, que permite sua fácil identificação. Quanto ao bico e às patas, também são pretos, o que lhe confere seu nome.

As fêmeas são de tons mais claros, chegando a apresentar colorações marrons e com manchas no pescoço e na barriga, mas seguindo os mesmos padrões do macho. Os jovens apresentam tons castanhos na área do ventre, com plumagem preta ao longo do corpo.

Comportamento do chasco-preto

Essa ave passa a noite aos pares (durante a primavera) dentro de cavernas ou cavidades, enquanto no inverno dorme em grupos. Além disso, é considerada mais sociável com outros espécimes de sua espécie do que com outros tipos de chascos. Por essa razão, os espécimes podem ser vistos alimentando-se junto com até 6 indivíduos.

Em geral, é um animal tímido e arisco que mostra um comportamento defensivo quando se sente em perigo. Isso fica evidente por meio de seu rabo: constantemente é abanado e levantado, tentando parecer mais robusto para dissuadir seu agressor.

Interações com outras espécies

Parece haver um comportamento territorial, uma vez que machos de outras espécies respondem negativamente ao canto dessa ave. De acordo com pesquisa publicada na revista científica Ethology, constatou-se que 5 espécies de passeriformes reagiram ao canto do chasco-preto, indicando possível territorialidade. Além disso, espécimes agressivos também foram observados durante a época de reprodução.

Isso também pode significar segurança, pois indicaria para outras espécies que não há perigo de ser encontrado por predadores.

Alimentação do chasco-preto

Sua dieta é composta de insetos capturados no solo por meio da caça, na qual utilizam leves saltos. O chasco-preto geralmente faz sua busca em rochas, fendas, arbustos e cavidades, tentando encontrar ortópteros, louva-a-deus, hemípteros, lepidópteros, moscas, himenópteros, etc.

Reprodução do chasco-preto

Essa ave é monogâmica, embora tenham sido observados alguns casos de poliginia, 1 macho e 2 fêmeas. Os vínculos dos casais são mantidos ao longo do ano, já que até voltam a nidificar nas mesmas cavernas ou fendas.

Para conseguir uma parceira, o macho realiza um ritual de perseguição, no qual tenta convencer a fêmea. Esse processo ocorre no final de dezembro, de forma que entre janeiro e fevereiro os casais já estão constituídos.

Perseguição e dança

Durante o cortejo, o macho deve demonstrar à fêmea que ele é sua melhor escolha. Para isso, faz voos extravagantes, nos quais mostra sua plumagem e seu tamanho. Acompanhando com seu canto, ele sobe lentamente para atrair a atenção da parceira em potencial. Além disso, ao tocar o solo, continua com uma dança, que consiste em pequenos pulos, abrindo sua plumagem e mostrando sua cauda.

O objetivo da dança é chamar a atenção da fêmea, mas também busca mostrar os possíveis locais de nidificação. Na verdade, antes de o casal se estabelecer, o macho mostra várias cavernas esperando que sua parceira aceite uma e entre nela.

É nesse momento que ocorre o seu comportamento mais particular: o transporte de pedras.

Transporte de pedra

O ninho do chasco-preto geralmente é construído no topo de uma pilha de pedras. Por isso, o futuro pai transporta um grande número deles para o ninho. Porém, nem todas essas pedras se tornam parte essencial do ninho, podendo nem ser usadas para isso. Isso significa que os machos carregam quase 3 quilos de pedras no processo que podem não ser utilizadas.

Embora pareça estranho, o motivo pelo qual eles têm esse comportamento é por causa de um tipo adicional de avaliação que a fêmea faz. Ou seja, apesar de conquistá-la, o macho ainda precisa provar seu valor transportando pedras. Isso ajuda a futura mãe a saber quanto esforço deve colocar em sua reprodução e também informa a qualidade genética do macho.

Você pode pensar que isso não faz sentido, já que uma ave não tem como saber se seu parceiro tem uma boa qualidade genética apenas através da visão. Porém, o que a mulher vê é a quantidade de pedras que seu pretendente consegue trazer. Isso é mais do que suficiente para que ela faça seu julgamento, porque, se ele consegue trazer muitas pedras, significa que as suas asas estão bem desenvolvidas e suportam muito cansaço.

Cópula

Se a futura mãe decidir que o macho é uma boa escolha, ocorre a cópula, na qual ambos executam uma dança que termina com o macho fecundando a fêmea. Nesse ponto, a quantidade de pedras que são carregadas é muito importante, pois se o parceiro não atender às expectativas, o vínculo pode se desfazer.

A dissolução do casal é rara, mas pode ocorrer.

Posta e incubação

A mãe começa a botar os ovos no máximo em meados de fevereiro e põe uma quantidade altamente variável. As fêmeas podem colocar em média de 3 a 4 ovos por ninhada, podendo ter até 10 ninhadas. Cada um dos novos filhotes eclode após 14 dias de incubação e todos serão cuidados pela mãe e alimentados pelo pai.

Aos 14 ou 15 dias, os filhotes geralmente deixam o ninho, embora comecem seus primeiros voos de teste no terceiro dia. Finalmente, uma semana depois, eles podem se alimentar sozinhos, mas continuarão sendo cuidados pelos pais por mais 15 dias antes de se tornarem independentes.

Estado de conservação

Na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, o chasco-preto é uma espécie pouco preocupante. Foi detectada uma redução em sua população, embora não constante. Tem sido considerado, portanto, que as invasões de pastagens e o reflorestamento de zonas áridas podem ser alguns fatores associados a essa situação.

Um chasco-preto piando.

 

As aves geralmente exibem alguns dos mais belos padrões de cortejo, e esse chasco não é uma exceção. Afinal, é necessário lembrar que esses comportamentos servem aos animais para selecionar o organismo mais bem preparado no que diz respeito à produção de descendentes. Em outras palavras, a seleção natural sempre funciona nas sombras.

Pode interessar a você...
Abetarda-indiana: uma das maiores aves voadoras em perigo de extinção
Meus AnimaisLeia em Meus Animais
Abetarda-indiana: uma das maiores aves voadoras em perigo de extinção

A abetarda-indiana é considerada a terceira ave voadora mais pesada do mundo. Infelizmente, seu estado de conservação é muito precário.



  • Møller, A. P. (1992). Interspecific response to playback of bird song. Ethology90(4), 315-320.
  • Moreno, J., Soler, M., Møller, A. P., & Linden, M. (1994). The function of stone carrying in the black wheatear, Oenanthe leucura. Animal Behaviour47(6), 1297-1309.
  • Joan, R. E. A. L. (2000). Los incendios pueden favorecer la recolonización de la collalba negra Oenanthe leucura. Ardeola47(1), 93-96.
  • Richardson, F. (1965). Breeding and feeding habits of the black wheatear Oenanthe leucura in Southern Spain. Ibis107(1), 1-16.
  • Soler, M., Moreno, J., Møller, A. P., Lindén, M., & Soler, J. J. (1995). Determinants of reproductive success in a Mediterranean multi-brooded passerine: the Black Wheatear Oenanthe leucura. Journal für Ornithologie136(1), 17-27.
  • Moreno Klemming, J., Carrascal, L. M., Salvador Vilariño, V., & Salvador Milla, A. (2016). Collalba negra–Oenanthe leucura (Gmelin, 1789).