A leoa: inteligência, estratégia e instinto maternal

A leoa cuida dos seus filhotes até eles atingirem a idade de 2 ou 3 anos. Então, a mãe entra no cio novamente e o grupo expulsa os jovens machos.

Última atualização: 14 Fevereiro, 2021

Atualmente, a sobrevivência dos grandes felinos é um enorme desafio por causa da destruição de habitats, da caça e das alterações climáticas. Felizmente, a natureza dotou a leoa com a inteligência e a versatilidade necessárias para estabelecer estratégias a fim de preservar a sua prole.

Poucos animais se importam mais com os filhotes do que as leoas. Além de um predador nato, estamos diante de um mamífero dedicado, corajoso e com uma perseverança incomum. Se você quiser saber mais sobre o comportamento das leoas na natureza, continue lendo.

Estratégia de proteção materna desde a concepção

Na vida selvagem, uma leoa no cio pode se acasalar com diferentes machos do bando. É comum que ela se reproduza de 20 a 40 vezes em média, por incrível que pareça. Essa pode ser a primeira das estratégias de proteção dos filhotes: o acasalamento com diversos machos.

A fertilização por diferentes machos garante a variabilidade genética da prole. Isso é importante porque o infanticídio é comum no bando, por exemplo, caso o macho dominante seja substituído. Nesse cenário, a variabilidade genética da prole é muito benéfica para a sua sobrevivência dentro do bando.

A segunda estratégia das mamães leoas é sincronizar as suas gestaçõesIsso beneficia a criação conjunta e aumenta as chances de sobrevivência da prole.

A leoa se esconde durante os primeiros dois meses de vida dos filhotes

Na hora do parto, as leoas procuram uma toca longe do bando para esconder os seus filhotes. Geralmente, a ninhada tem até 4 filhotes.

É notável como os filhotes nascem indefesos: eles permanecem cegos até os 3-11 dias de vida. A mãe os apresenta ao bando quando eles completam aproximadamente 8 semanas de vida. Enquanto estão escondidos, a leoa muda de toca a cada duas semanas.

Durante essa fase, os predadores que causam a maior mortalidade de filhotes são as hienas, os chacais, os elefantes e os búfalos.

A leoa exerce dedicação exclusiva à criação

A gestação média de uma leoa dura de 105 a 110 dias. No período pós-parto, as fêmeas geralmente não são receptivas à reprodução novamente até que os seus filhotes cresçam e se tornem independentes.

Por esse motivo, o intervalo entre os nascimentos pode se estender até 3 anos quando as leoas estão em seu ambiente natural. Em cativeiro, o tempo pode ser reduzido para um ano. A lactância se estende até que os filhotes tenham aproximadamente 8 meses de vida.

A creche dos filhotes é fundamental para a leoa trabalhadora

Conforme mencionado acima, as fêmeas de um mesmo bando têm os seus filhotes aproximadamente ao mesmo tempo. Isso incentiva a criação de uma rede comunitária de cuidado, proteção e alimentação dos filhotes.

Na verdade, graças a esse arranjo, as leoas do mesmo bando muitas vezes amamentam filhotes de outra leoa. No entanto, se a diferença de idade entre os filhotes for superior a 3 meses, a creche não vai aceitar os filhotes mais novos.

Os pesquisadores de comportamento consideram que isso se deve à natureza comunitária da amamentação. Filhotes mais velhos e mais fortes ingerem uma porção maior de leite, fazendo com que os mais novos morram de fome.

O esforço da leoa pode ser inútil, pois a maioria dos filhotes não sobrevive

As condições adversas da vida selvagem fazem com que de 40 a 80% dos filhotes morram antes de completar um ano. Os dois principais motivos são a escassez de alimentos e o ataque de invasores.

Geralmente, os invasores são leões machos expulsos de outro bando, que estão em busca de fêmeas. Quando encontram um bando, devem primeiramente lutar contra os machos existentes. Se tiverem sucesso, a coalizão de invasores matará os filhotes.

De acordo com especialistas, esse massacre de filhotes tem como objetivo aumentar a disponibilidade das fêmeas e garantir a transmissão dos genes dos machos agressores. As leoas, no entanto, lutarão até a morte para proteger os seus filhotes. Além disso, é comum que as mães se defendam em grupo.

As leoas se adaptam para lidar com o infanticídio

Entre os leões africanos, o infanticídio é praticado por machos invasores que buscam obter direitos de reprodução temporários, porém exclusivos, sobre um grupo de fêmeas.

No entanto, entre os leões asiáticos – que vivem nas florestas de Gir, na Índia – os adultos vivem em grupos do mesmo sexo que interagem principalmente para o acasalamento. Recentemente, um estudo de acompanhamento de 70 leões asiáticos revelou uma forma diferente de organização:

  • Os grupos femininos (foram 9 analisados) utilizavam territórios exclusivos, enquanto os territórios masculinos (11 coalizões) se sobrepunham em áreas de intenso uso feminino.
  • Os grupos interagiam em eventos de acasalamento (n = 76). Neles, as leoas se acasalaram com várias coalizões rivais antes de conceber.
  • Como resultado, as coalizões de machos vizinhas, embora hostis entre si, eram tolerantes com as mesmas ninhadas, pois havia uma paternidade confusa entre elas. Esse sistema parece diminuir o infanticídio dos filhotes. Além disso, provavelmente também diversifica as linhagens paternas nas ninhadas.

Esse estudo destaca a plasticidade do comportamento em nível etológico de uma mesma espécie que vive em regiões ecológicas com diferentes disponibilidades de recursos. No final das contas, a ideia é manter um equilíbrio entre a variabilidade genética e a mortalidade infantil.

Assim como você viu, a leoa é uma das mães mais dedicadas de todo o reino animal. Sem dúvida, a natureza nunca deixa de nos surpreender, pois alguns dos comportamentos listados aqui são ainda mais sofisticados do que os do próprio ser humano.



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