O pangolim transmite o coronavírus COVID-19?

março 20, 2020
É verdade que o pangolim transmite o coronavírus COVID-19? Caso seja, isso tem consequências importantes para o gerenciamento desta doença? Saiba mais sobre o assunto abaixo.

A comunidade científica agiu rápido para determinar se o pangolim transmite o coronavírus COVID-19 ou não. É importante ressaltar que os coronavírus (CoV) são bem conhecidos pelos virologistas veterinários há décadas.

Em geral, os coronavírus infectam aves e mamíferos de uma maneira específica da espécie. Assim, são conhecidas cepas específicas de coronavírus que infectam humanos, gatos, cães, roedores, coelhos, furões, vacas, perus e porcos.

Abaixo, faremos um breve resumo do que se sabe até agora sobre o COVID-19.

Coronavírus e a infecção em humanos

Os coronavírus foram identificados pela primeira vez no final da década de 1960. Desde então, quatro CoVs que infectavam humanos (HCoV) eram conhecidos por causar infecções leves, como o resfriado comum.

Curiosamente, esses quatro HCoVs de baixa patogenicidade também estão relacionados aos coronavírus que afetam os animais. De acordo com vários estudos que analisaram as sequências genômicas atualmente disponíveis, essas espécies animais foram sugeridas como seus hospedeiros naturais:

  • HCoV-HKU1: roedor natural.
  • HCoV-NL63: morcego natural.
  • HCoV-OC43: roedor natural: gado como hospedeiro intermediário.
  • HCoV-229E: morcego natural: alpacas como hospedeiro intermediário.
Coronavírus e a infecção em humanos

Coronavírus altamente patogênicos para os humanos

Até os anos de 2002 a 2003, os CoVs não eram considerados altamente patogênicos para os seres humanos. Na época, o surto do coronavírus relacionado à síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV) ocorreu na província de Guangdong, na China. Este vírus se espalhou pelo mundo.

Posteriormente, em 2012, outro coronavírus altamente patogênico, o coronavírus da síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV), surgiu na Arábia Saudita e em outros países do Oriente Médio.

Nos dois casos, acreditava-se que os vírus se originavam dos morcegos. Além disso, foram encontradas evidências que apontavam para essas espécies como seus hospedeiros intermediários:

  • SARS-CoV: morcegos: civeta de palma mascarada (Paguma larvata)
  • MERS-CoV: morcegos: dromedários
  • COVID-19: morcegos: intermediário?

É devido aos dois precedentes que foi formulada a hipótese de que o COVID-19 também possa ser de origem animal. De fato, as análises da sequência genômica sustentam que o COVID-19 também se originou em morcegos. No entanto, seu hospedeiro intermediário ainda não é conhecido.

Pangolim em seu habitat natural

O que significa que o pangolim seja – possivelmente – o hospedeiro intermediário?

Normalmente, os vírus se espalham entre os animais da mesma espécie. Às vezes, os vírus podem se ligar ou se “recombinar” e causar doenças em outras espécies.

É importante saber que os vírus podem ser transmitidos dos animais para os humanos de duas formas principais:

  • Diretamente do hospedeiro natural ou de suas secreções contaminadas pelo vírus.
  • Através de outro organismo que funciona como hospedeiro intermediário.

Cabe ressaltar que os vírus têm seus genes separados em segmentos. Assim, o genoma segmentado permite que vírus de diferentes espécies se misturem ou se recombinem para criar um novo vírus. Nesses casos, é comum que vírus de duas espécies diferentes infectem a mesma pessoa ou animal ao mesmo tempo, o que é conhecido como coinfecção.

Dessa forma, o novo vírus ganha novas propriedades. Por exemplo, ele pode infectar humanos e se espalhar facilmente de pessoa para pessoa, e então acontece uma pandemia. Devido à novidade da estrutura viral, a maioria das pessoas terá pouca ou nenhuma proteção contra a infecção.

Então, o pangolim transmite o coronavírus?

Pesquisas epidemiológicas revelaram que muitos pacientes iniciais foram expostos à vida selvagem no mercado atacadista de frutos do mar de Huanan. Este recinto é o maior mercado de frutos do mar da China central. Lá, eles vendem diferentes espécies de morcegos, visons, cobras e ratos de bambu chineses.

Além disso, gatos de diferentes raças, porcos-espinhos, cães, pássaros e outros animais de fazenda são comumente vendidos. Esses mercados são conhecidos como ‘mercados úmidos’, pois são tradicionalmente locais que vendem animais mortos e vivos ao ar livre.

É fácil imaginar que o sangue e outros fluidos corporais de diferentes espécies animais representem uma fonte excepcional de contágio.

É importante notar que o pangolim não estava na lista de animais no mercado, talvez devido à proibição de sua comercialização. Desde 1º de janeiro de 2020, o mercado municipal de frutos do mar no sul da China foi fechado pelo governo municipal de Wuhan.

Evidências de que o pangolim é transmissor do coronavírus

Um grupo de cientistas norte-americanos identificou uma alta similaridade de sequência genômica entre o COVID-19 e um genoma de coronavírus reconstruído a partir de bancos de dados de pangolins.

Outro grupo da Universidade de Hong Kong isolou um vírus a partir do tecido de pangolim. A análise das sequências dos genomas virais determinou a presença de dois novos genomas de coronavírus. Os genomas têm uma similaridade de aproximadamente 85,5 a 92,4% com o COVID-19.

Muito recentemente, pesquisadores de Guangzhou, China, sugeriram que os pangolins (Manis pentadactyla) são os prováveis ​​hospedeiros intermediários do COVID-19 para os humanos. Essa sugestão teve origem na detecção do CoV em pangolins que parecem estar intimamente relacionados ao COVID-19.

Esta informação vem das declarações do reitor da Universidade Agrícola do Sul da China, mas ainda não foram relatadas em um artigo científico. No entanto, é necessário cuidado no manuseio da informação, uma vez que as análises genéticas ainda estão em andamento.

Se o pangolim transmite o coronavírus, como ele faz isso?

O pangolim é o animal mais traficado no planeta. Este pequeno mamífero é esquivo, com hábitos noturnos e coberto de escamas. Infelizmente, muitos acreditam que as suas várias partes do corpo, principalmente as suas escamas, mas também seus fetos, sangue, ossos e garras, tenham propriedades curativas.

Se o pangolim transmitisse o coronavírus, seria através do uso que o ser humano dá a esse animal.

Nota final

A aparição do COVID-19 é um excelente exemplo da relação estrita entre a saúde humana e animal, a condição do ecossistema e os hábitos humanos.

Hoje, reconhecemos o fato de que muitos vírus existem nos reservatórios naturais há muito tempo. Além disso, reconhecemos que a propagação constante de vírus dos seus hospedeiros naturais para os humanos e outros animais se deve, em grande parte, às atividades humanas. Isso inclui práticas agrícolas modernas e urbanização.

Portanto, a maneira mais eficaz de prevenir a zoonose viral é manter as barreiras entre os reservatórios naturais e a sociedade humana.

Se o pangolim transmitisse o coronavírus, o manuseio desses animais exigiria um cuidado considerável. Portanto, a sua comercialização deve ser estritamente proibida na China e no resto do mundo.

*Nota importante: na sexta-feira, 24 de fevereiro, foi anunciada a notícia de que o pangolim não foi a origem do coronavírus.