O veneno do ornitorrinco: o que você precisa saber

O veneno do ornitorrinco é mais uma de suas peculiaridades, que não são poucas. Se você quiser conhecer mais sobre essa característica, confira um resumo aqui.
O veneno do ornitorrinco: o que você precisa saber

Última atualização: 06 Setembro, 2021

Se existe um animal estranho e bizarro, sem dúvida é esse mamífero com bico de pato. O ornitorrinco transpira leite, conta com eletrorrecepção, bota ovos, tem 10 cromossomos sexuais e, se não bastasse, se for incomodado, pode usar seu veneno. Quando o primeiro espécime empalhado foi trazido da Austrália para a Inglaterra, os cientistas acharam que se tratava de uma brincadeira.

Neste artigo você poderá ler sobre o veneno desse mamífero. Como suas demais características, esse aspecto, quando analisado, também fez os profissionais pensarem “Isso não deveria acontecer!”. Ficou curioso, né? Então continue a leitura para saber mais.

Efeitos do veneno do ornitorrinco em humanos

O ornitorrinco (Ornithorhynchus anatinus) é um mamífero semiaquático endêmico da Austrália e da ilha da Tasmânia. É o único representante vivo de sua família (Ornithorhynchidae) e gênero, embora algumas espécies semelhantes tenham sido encontradas em registros fósseis. É uma das 5 espécies que ainda subsistem na ordem dos monotremados, junto com as equidnas.

Esse animal é relativamente tímido e só os machos são venenosos, ao contrário do que se costuma pensar. Poucas “mordidas” ou ferimentos causados por esse mamífero foram registrados, mas as vítimas relataram dor intensa. Ao redor da ferida surge um edema que se espalha pela área afetada.

Curiosamente, algumas pessoas argumentam que esse veneno pode produzir hiperalgesia acentuada. Isso significa que o paciente reage exageradamente à dor por dias, semanas e até meses após o contato com a toxina, visto que os nociceptores (células responsáveis pela percepção da dor) da área são afetados em longo prazo.

O ornitorrinco injeta 2 a 4 mililitros de veneno em uma mordida.

Embora não seja mortal para nossa espécie, a dor causada pelo veneno do ornitorrinco não deve ser menosprezada: é tão intensa que nem mesmo morfina alivia a sensação. Além disso, é capaz de produzir a já citada hiperalgesia, além de edema, hiperventilação e até convulsões, dependendo da dose inoculada.

O veneno do ornitorrinco é composto por 19 peptídeos diferentes e componentes adicionais não proteicos, conforme indicam os estudos. Três tipos de compostos que o compõem foram identificados:

  1. Defensinas: produzidas pelo sistema imunológico do ornitorrinco, são semelhantes às encontradas no veneno de répteis, aranhas, peixes e estrelas-do-mar, embora nesses mamíferos tenha evoluído de forma divergente.
  2. Nanométricos: neurotoxinas associadas à atrofia muscular.
  3. Fatores de crescimento nervoso: esses peptídeos estão relacionados à hiperalgesia, pois favorecem a ramificação e a criação de terminações nervosas.

O veneno é mortal para os humanos?

O veneno do ornitorrinco é mortal para pequenos animais, mas não para os humanos. Além disso, ele não é um caçador. Portanto, seus predadores são claramente mais mortíferos do que ele e as fêmeas não possuem veneno. Então, para que eles usam seu veneno?

A teoria mais sólida a esse respeito sugere que é uma arma ofensiva para a época de acasalamento. Os machos lutam entre si para estabelecer um território e obter o direito de cópula, que ocorre entre junho e outubro. Portanto, um ser humano mordido muito provavelmente estaria representando uma ameaça ao animal de alguma forma, principalmente na fase reprodutiva da espécie.

Curiosamente, as fêmeas dessa espécie têm 2 óvulos, mas apenas o esquerdo é funcional.

Como o ornitorrinco produz seu veneno?

O veneno do ornitorrinco é produzido nas glândulas femorais, localizadas nas patas traseiras. Essas glândulas se conectam a 2 esporões do calcâneo que, por sua vez, estão presos a um pequeno osso que fornece um melhor ângulo de ataque com sua articulação.

No caso das fêmeas, o esporão é vestigial. Nunca se desenvolve como no macho e, além disso, cai antes dos 12 meses de idade. A informação genética necessária para produzir o veneno está no cromossomo masculino, então não faria sentido preservar essa estrutura para o resto da vida no caso do gênero feminino.

O ataque do ornitorrinco consiste em dar um “chute” para trás, com uma força considerável, e cravar os esporões. O golpe é intenso o suficiente para que o animal fique fincado, literalmente. Pessoas que já passaram por essa situação necessitaram de assistência médica para removê-lo.

O esporão libera o veneno do ornitorrinco.

Um animal quase pré-histórico!

As curiosidades sobre esse mamífero não têm fim. O ancestral comum entre os ornitorrincos e os humanos viveu há cerca de 170 milhões de anos e, desde então, a espécie se separou de praticamente todas as outras, compartilhando apenas 80% do genoma com o restante dos mamíferos.

Seus numerosos cromossomos sexuais são mais próximos aos das galinhas, pois parece que eles não mudaram muito desde as aves pré-históricas. O sequenciamento recente de seu genoma revelou importantes descobertas conectando mamíferos, ovos e veneno. Recomendamos que você dê uma olhada nas fontes citadas se quiser saber mais sobre esse incrível animal.

Pode interessar a você...
Tipos de quati, um mamífero muito simpático
Meus AnimaisLeia em Meus Animais
Tipos de quati, um mamífero muito simpático

Os diferentes tipos de quati se destacam pela sua capacidade de escalar árvores, bem como porque não fogem do contato com seres humanos.



  • Whittington, C. M., Koh, J. M., Warren, W. C., Papenfuss, A. T., Torres, A. M., Kuchel, P. W., & Belov, K. (2009). Understanding and utilising mammalian venom via a platypus venom transcriptome. Journal of proteomics, 72(2), 155-164.
  • Whittington, C., & Belov, K. (2007). Platypus venom: A review. Australian Mammalogy, 29(1), 57-62.
  • Bansal, P. S., Torres, A. M., Crossett, B., Wong, K. K., Koh, J. M., Geraghty, D. P., … & Kuchel, P. W. (2008). Substrate specificity of platypus venom L-to-D-peptide isomerase. Journal of Biological Chemistry, 283(14), 8969-8975.
  • Whittington, C. M., Papenfuss, A. T., Locke, D. P., Mardis, E. R., Wilson, R. K., Abubucker, S., … & Warren, W. C. (2010). Novel venom gene discovery in the platypus. Genome biology, 11(9), 1-13.