Tubarão-águia: um fóssil de 93 milhões de anos

O tubarão-águia era uma criatura realmente única. Suas nadadeiras peitorais desproporcionais são uma aparência nunca vista antes entre os tubarões.
Tubarão-águia: um fóssil de 93 milhões de anos

Última atualização: 07 Maio, 2021

Atualmente, a maioria das espécies de tubarões são muito semelhantes entre si, com hábitos predatórios marcados e formato de torpedo. Contudo, um estudo publicado este ano na revista Science descreveu uma nova espécie, chamada tubarão-águia ou Aquilolamna milarcae, cuja existência indica que nem sempre foi assim.

Esse estranho animal marinho viveu 93 milhões de anos atrás no atual Vallecillo, no México. Os fósseis dessa criatura aquática apresentam uma morfologia única e foram preservados de forma excelente – o que é muito raro para os tubarões.

A descoberta do tubarão-águia traz novas perspectivas sobre a biodiversidade passada dos elasmobrânquios, habitantes das marés antes da chegada dos humanos ao planeta. Se você quiser saber mais sobre ele, continue lendo.

Características do tubarão-águia

Este antigo condríctio se destaca por sua aparência completamente incomum. Apesar de ser um tubarão, várias de suas características lembram as jamantas atuais.

O corpo dessa espécie é alongado, hidrodinâmico e em forma de tubo, como em outros tubarões. Também termina em uma nadadeira caudal heterocerca, que consiste em um lobo superior mais longo e um lobo inferior menor, ambos de formato triangular.

Sem dúvida, o aspecto mais marcante do tubarão-águia são suas gigantescas nadadeiras peitorais, que nos tubarões modernos são bem pequenas. Esse animal media 1,65 metros da cabeça à cauda, e a envergadura de suas nadadeiras chegava a 1,9 metros.

Essas nadadeiras peitorais, finas e extremamente longas, terminavam possivelmente em ponta. Elas lembram algum tipo de asas aquáticas, daí o nome que o animal recebeu.

Curiosamente, essa espécie não parece ter o resto das nadadeiras típicas dos tubarões. O estudo mencionado, publicado na prestigiosa revista Science, não encontrou nadadeiras dorsais – o triângulo característico do dorso – nem nadadeiras pélvicas, que estariam localizadas embaixo e mais próximas da cauda.

A cabeça desse animal é curta e tem o formato de um losango, com uma boca larga, bem afastada da cabeça pontiaguda que é mais comum hoje em dia. Nenhum dente foi encontrado, o que sugere que o animal não os tinha ou que estes eram muito pequenos.

O tubarão-águia lembrava algumas arraias atuais.

Modo de vida e evolução

Como já mencionamos, a aparência desse animal lembra a das arraias atuais. Sua ecologia e modo de vida também eram extremamente semelhantes.

É possível que o tubarão-águia nadasse movendo suas nadadeiras como se estivesse em um voo subaquático, como fazem as jamantas. Ele também era capaz de nadar lentamente, impulsionando-se com a cauda. Nesse caso, as nadadeiras peitorais seriam apenas grandes estabilizadores motores.

Além disso, o formato da cabeça, a ausência de dentes e a natação lenta indicam que esse animal não era um predador. O tubarão-águia se alimentava por filtração, pois abria a boca para engolir grandes quantidades de plâncton, assim como os tubarões-baleia, os tubarões-frade e, claro, as jamantas.

Apesar das semelhanças, o tubarão-águia não era parente das jamantas ou de outros batoídeos. Este é um exemplo de convergência evolutiva: os dois organismos são semelhantes e ocupam o mesmo nicho ecológico, mas chegaram a esse ponto seguindo caminhos independentes.

Aquilolamna desapareceu há 66 milhões de anos, na extinção do Cretáceo-Paleógeno. As jamantas e outros condríctios que se alimentam de filtros começaram a aparecer cerca de 30 milhões de anos depois.

A descoberta do tubarão-águia

Aquilolamna foi encontrado em 2012 nas pedreiras de calcário de Vallecillo, no México. Essas áreas são famosas no âmbito arqueológico, pois abrigam um grande número de fósseis impressionantes.

Curiosamente, esse fóssil conserva a maior parte do esqueleto, mas não os dentes. O comum entre os tubarões é exatamente o contrário: apenas os dentes tendem a se fossilizar, já que são as únicas partes ósseas. O resto do esqueleto é cartilaginoso e não costuma ser preservado.

Tanto que, hoje em dia, a taxonomia dos tubarões é amplamente baseada nos dentes. Como esse espécime não os apresenta, é muito difícil determinar sua classificação exata. Para descobrir isso, serão necessários mais estudos.

Por outro lado, essa descoberta também indica que outros tubarões fósseis podem ser mais estranhos do que o esperado. Como apenas os dentes são conhecidos, é impossível adivinhar como seria sua aparência em vida. É importante notar que até a aparência de animais tão famosos quanto o megalodonte é desconhecido.

Uma obtenção duvidosa

Embora este artigo tenha fornecido informações novas e significativas, ele também levanta considerações éticas desagradáveis. O estudo de fósseis realizados em países de baixa renda tende a carregar práticas colonialistas e exploradoras, algo muito mal visto na sociedade atual do ponto de vista ético e moral.

Esses países implementaram leis para combater essas práticas e evitar o espólio de seu patrimônio cultural e paleontológico. Contudo, em resposta a essas proibições, surgiu um mercado negro muito lucrativo de comércio de fósseis.

Alguns autores indicam que o fóssil do tubarão-águia pode ter sido obtido de forma duvidosa, aproveitando brechas legais, violando códigos éticos e dispensando a colaboração de cientistas nativos. Sem dúvida, isso destaca a parte mais obscura da paleontologia no Ocidente.

 

Um fóssil azul de um peixe.

Seja como for, a descoberta desse animal foi uma revolução para a comunidade científica no campo da evolução. Sua existência mostra que, na verdade, sabemos muito pouco sobre o modo de vida e a aparência dos peixes que outrora habitaram nossos mares.

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