Os vírus podem alterar o comportamento?

junho 27, 2020
A evolução dos vírus se deve à capacidade de se adaptar a diferentes hospedeiros e circunstâncias, garantindo, assim, sua transmissão bem-sucedida. Este artigo vai ajudar você a aprender mais sobre a maneira estratégica que esse agente microscópico usa para infectar.

Você sabia que os vírus podem alterar o comportamento dos animais? É verdade! Ao longo da evolução, os vírus adquiriram diferentes mecanismos adaptativos para garantir sua transmissão ao hospedeiro. Um deles é alterar o comportamento dos organismos vivos.

Muitos artrópodes atuam como vetores transmissores: carrapatos, pulgas, mosquitos… A transmissão ocorre quando o vetor se alimenta de sangue ou de outras substâncias, como a seiva (no caso das plantas), infectadas por algum agente patógeno que pode ser uma bactéria, um parasita ou um vírus. Posteriormente, eles picam os animais ou os seres humanos, que atuam como o hospedeiro definitivo.

Além de afetar seus vetores, diversos vírus causam infecções no sistema nervoso central (SNC) dos animais, causando distúrbios no comportamento do hospedeiro.

Aqui vamos discutir alguns exemplos de estratégias que os vírus adotam para promover sua próxima transmissão.

Vírus que podem alterar o comportamento de vetores artrópodes

1. O vírus do tomate. Esse vírus pertencente à família Bunyaviridae, que afeta as culturas e altera o comportamento alimentar do seu vetor, os tripes (um inseto da ordem Thysanoptera).

Por um lado, os machos infectados se alimentam com mais frequência do que os não infectados. Por outro lado, estimula a salivação até três vezes mais. Tudo isso leva a uma maior probabilidade de inoculação do vírus no tomate.

Vírus que podem alterar o comportamento de vetores artrópodes

Outros vírus nessa família viral, o La Crosse (causador da encefalite por La Crosse) e o vírus da febre do vale Rift, causam um aumento da frequência de picadas dos vetores.

2. Vírus da dengueO Aedes aegypti é o mosquito vetor flavivírus que causa doenças como febre amarela, dengue e zika, tanto em animais quanto em humanos.

As fêmeas usam a sua capacidade olfativa para encontrar o melhor lugar para pôr os ovos. O vírus afeta o sistema nervoso central, alterando seu processo olfativo e expandindo a faixa espacial para a oviposição e a colonização de novos nichos. Como resultado, o vírus pode se espalhar para outras áreas.

Vemos, portanto, que essa capacidade de alterar o comportamento do vetor é preservada nesses vírus como um mecanismo de evolução e adaptação que melhora sua transmissão.

Vírus que pode alterar o comportamento através do SNC

Os distúrbios no comportamento de animais doentes estão relacionados a alterações de peso, temperatura, preferência de paladar, ingestão de alimentos e água, e padrões de sono.

Foi demonstrado que os vírus desempenham um papel direto nesses distúrbios comportamentais. Por exemplo:

  • Em camundongos neonatais, o vírus da doença de Borna os induz a uma preferência de sabor anormal pelo sal.
  • O vírus da cinomose canina induz à perda de peso em cães, enquanto 5 a 10% dos ratos infectados aumentam seu peso em 300%.
  • Foram observadas alterações no padrão do sono causadas pela infecção pelo vírus influenza em camundongos e o vírus da imunodeficiência em gatos.

A capacidade cognitiva está associada ao sistema neuronal e envolve atividades de aprendizagem e memória, bem como motoras e motivacionais.

A infecção viral pode afetar a capacidade cognitiva direta ou indiretamente

Vias diretas: incluem lesões de células neuronais devido à replicação do próprio vírus ou porque seus componentes causam lise celular: o vírus da raiva e o vírus da herpes simples.

Vias indiretas: o vírus causa danos a diferentes células através de distúrbios neuroambientais ou como resultado das respostas imunes do hospedeiro à infecção. A esclerose múltipla, uma doença autoimune, foi sugerida para começar com uma infecção viral persistente.

As vias indiretas podem estar relacionadas ao desenvolvimento ou agravamento de distúrbios neurodegenerativos, como o Alzheimer e o Parkinson.

Vírus relacionados a distúrbios neurológicos

Influenza A. Os camundongos infectados com esse vírus (vírus da gripe) mostram mudanças no comportamento relacionado à ansiedade e cognição. Isso ocorre devido a alterações na expressão gênica que regulam as funções sinápticas na amígdala, no hipotálamo e no cerebelo.

Vírus relacionados a distúrbios neurológicos

Vírus da raiva. Como você já deve saber, esse vírus causa mudanças drásticas no comportamento dos hospedeiros infectados. Um estudo publicado na Scientific Reports descobriu que uma região da glicoproteína desse vírus funciona inibindo os receptores de neurotransmissores presentes no SNC.

Vírus que afetam outros órgãos

Hantavírus. Os reservatórios desse vírus são os roedores de várias espécies (nas quais não causa doenças). Através da saliva e das fezes, esses animais podem transmiti-lo às pessoas e causar a síndrome pulmonar do hantavírus.

Há um estudo realizado na Noruega com roedores no qual os machos infectados exibem um comportamento muito mais agressivo do que machos não infectados.

A presença desse vírus nos pulmões, rins e testículos pode ser a razão dessa mudança de comportamento. Além disso, a agressividade os leva a causar mais mordidas, o que pode favorecer a propagação do vírus através das feridas.

Os vírus podem alterar o comportamento

Como vimos, a infecção viral do SNC pode causar anormalidades neurológicas, além de alterar o comportamento. Portanto, pode-se dizer que os vírus – de certa forma – podem alterar o comportamento.

Uma melhor compreensão dos efeitos da infecção viral crônica ou persistente no SNC nos ajudará a entender melhor como funcionam os mecanismos moleculares relacionados aos distúrbios comportamentais, mesmo em animais.

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