A lebre-do-mar Aplysia dactylomela: habitat e características

A lebre-do-mar Aplysia dactylomela é um molusco gastrópode de ampla distribuição. Seu método de defesa e suas adaptações muito provavelmente vão surpreender você!
A lebre-do-mar Aplysia dactylomela: habitat e características

Última atualização: 06 Julho, 2021

Aplysia dactylomela é uma grande espécie de invertebrado incluída no grupo das lebres-do-mar ou lesmas-do-mar, representadas na família Aplysiidae. Todos esses curiosos animais pertencem ao filo Mollusca e à classe Gasteropoda, então compartilham o táxon com caracóis e lesmas terrestres.

Como todos os moluscos, esses animais carecem de um esqueleto interno complexo, são de corpo mole, não possuem segmentos e apresentam um órgão de alimentação especial, a rádula, com o qual obtêm seu alimento. Se você quiser saber mais sobre essa espécie abundante e curiosa, continue lendo.

Habitat da lebre-do-mar Aplysia dactylomela

Em primeiro lugar, devemos esmiuçar a pequena confusão filogenética em que essa espécie foi classificada por vários anos, pois isso é essencial para entender sua dinâmica de distribuição. Até recentemente, acreditava-se que a lebre-do-mar Aplysia dactylomela se distribuía por quase todas as águas marinhas tropicais e temperadas do mundo, mas não é bem assim.

Essa espécie se divide em 3 “núcleos” distintivos: o Oceano Índico, o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico, regiões onde é considerada um invertebrado nativo. De qualquer modo, estudos publicados no site BioOne mostraram que a população do Indo-Pacífico é uma espécie diferente, Aplysia argus, muito semelhante morfologicamente à sua parente.

Curiosamente, avistamentos dessa espécie foram datados no Mar Mediterrâneo desde 2002, com relatos em Israel, Malta, Sicília, Grécia, Croácia, Ilhas Baleares e Catalunha (Espanha). Acredita-se que a lebre-do-mar Aplysia dactylomela possa ter se instalado nessa região devido ao aumento global da temperatura dos ecossistemas marinhos, devido às mudanças climáticas.

 

Características físicas

Os membros da família Aplysiidae têm uma concha, mas ela se atrofiou e está internalizada, por isso não pode ser vista a olho nu. Essa característica os diferencia de outras lesmas-do-mar, como os nudibrânquios, que não apresentam nenhum tipo de estrutura rígida no corpo.

A Aplysia dactylomela exibe uma tonalidade verde-amarelada, mas a coloração geral depende da sua alimentação. Por exemplo, espécimes que consomem algas vermelhas como base de sua dieta exibem uma tonalidade alaranjada. Além disso, essa espécie difere do restante do gênero pelos anéis escuros distribuídos por todo o corpo, que formam um padrão característico.

Como todos os gastrópodes, a lebre-do-mar Aplysia dactylomela tem um , uma estrutura ventral alongada que permite a locomoção. Esse órgão tem uma textura áspera, enquanto o resto do corpo é muito macio ao toque. Os parapódios, apêndices especializados, surgem como prolongamentos do pé e permitem que o animal nade através da coluna d’água.

Em termos de tamanho, os maiores exemplares coletados até agora atingiram 41 centímetros de comprimento. A constituição física geral dessa espécie é espessa e áspera, embora seja um invertebrado desprotegido do meio ambiente sem uma concha externa.

A concha atrofiada está internalizada, coberta pelo manto. As brânquias estão do lado direito do manto, entre a concha e os parapódios.

Comportamento da lebre-do-mar Aplysia dactylomela

As lebres-do-mar são invertebrados que vivem em pradarias marinhas. Na fase adulta, essa espécie é estritamente noturna, pois só inicia seu pico de atividade quando o fundo está escuro. Para sua locomoção, pode rastejar pelo substrato arenoso com o pé ou nadar na coluna d’água, com a ajuda de seus parapódios.

O ato de nadar é realizado movendo os parapódios para cima e para baixo, criando um “funil” de água que impulsiona o invertebrado para a frente ou para cima. Porém, a locomoção no fundo com o pé é muito mais comum, pois deixa o animal menos exposto.

Alimentação

A lebre-do-mar Aplysia dactylomela é um gastrópode herbívoro estrito, portanto, habita pradarias marinhas. Como todos os membros da sua família, esses moluscos têm um apetite muito voraz e se alimentam constantemente de algas verdes e vermelhas. Dentre as espécies vegetais que mais consomem, destacam-se: Corallina, Chondrococcus hornemanni, Ulva reticulata e Cladophora.

A rádula dessa espécie é essencial no processo de alimentação. Além disso, apresenta uma câmara com placas endurecidas ricas em quitina que funciona como uma espécie de “moela”, cuja finalidade é digerir porções muito grandes de algas. Como indicam os estudos, essa espécie é extremamente voraz e se destaca pelo consumo e biocontrole de algas verdes.

Predadores e defesas da lebre-do-mar

As lebres-do-mar têm métodos de defesa muito curiosos. Quando ameaçados, esses invertebrados usam seus parapódios para se propelirem na coluna d’água. Além disso, apresentam um par de glândulas únicas no reino animal:

  1. Glândula roxa: encontrada na parte superior do manto, acima das brânquias. Emite fluidos roxos, que é um agente irritante que confunde os predadores.
  2. Glândula opalina: está localizada na base da cavidade do manto, sob as brânquias. Produz uma secreção esbranquiçada opaca.

A ideia de que essa espécie libera secreções diante de ameaças vem de vários estudos eletrofisiológicos. De qualquer modo, ainda não foi confirmado no ambiente natural que isso surge como resposta ao ataque de um predador.

Reprodução

Em condições laboratoriais, as lebres-do-mar se reproduzem em um único evento, que geralmente tem uma duração média de cerca de 7 meses. A primeira descarga de ovos ocorre quando o espécime atinge 2 meses de idade e continua a cada 2 a 4 dias, por mais de seis meses. Um espécime pode colocar até 67 milhões de ovos em um único evento reprodutivo.

Não vamos entrar em detalhes sobre a fisiologia do aparelho reprodutor da espécie, basta que saibamos que é hermafrodita. Na fase reprodutiva, um espécime atua como macho e outro como fêmea, sendo o primeiro aquele que introduz sua genitália e libera esperma no duto hermafrodita da “fêmea”.

Em eventos reprodutivos, até 12 indivíduos podem se associar em cadeia, com fecundações simultâneas. Sua estratégia é promíscua, “quanto mais, melhor”.

Desenvolvimento das larvas

Os ovos se desenvolvem nas pradarias de algas, onde permanecem protegidos de predadores em potencial. Uma larva véliger emerge, com um pé e uma concha bem desenvolvidos, mas sem a maioria das estruturas adultas. Durante essa fase, as lebres-do-mar fazem parte do plâncton suspenso na coluna d’água.

Depois de crescer, as larvas se acomodam novamente no fundo das algas, cerca de 2 ou 3 metros, e ocorre a metamorfose em espécime adulto. Aos 2 meses de idade, os jovens estão prontos para se reproduzir e o ciclo acima mencionado recomeça. Após o pico de atividade, aos 7 meses, o adulto começa a perder peso e morre em pouco tempo.

 

Estado de conservação e usos humanos

Infelizmente, essa espécie não foi avaliada pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). Só se pode afirmar que se trata de um animal “não extinto”, embora a sua distribuição no mar Mediterrâneo indique que as populações estejam relativamente saudáveis.

Por outro lado, a lebre-do-mar Aplysia dactylomela possui células nervosas ganglionares de grande interesse científico, pois são muito semelhantes às dos vertebrados. Isso torna a espécie ideal para estudos eletrofisiológicos e o desenvolvimento de conhecimentos no âmbito neurológico.

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