Os sapos são venenosos?

Os sapos são objeto de centenas de lendas e preconceitos, especialmente em referência à sua natureza perigosa. Aqui vamos contar se esses animais são venenosos ou não.
Os sapos são venenosos?

Última atualização: 19 Agosto, 2021

Se você mora em um ambiente rural ou gosta de sair para o campo à noite, certamente já viu um sapo rechonchudo caminhando lentamente ou esperando a passagem de um inseto perto de uma fonte de luz. Esses anfíbios são seres muito simpáticos e inofensivos, mas causam relutância na população em geral por causa de sua aparência. Você sabe se sapos são venenosos?

Os sapos são objeto de uma série de mitos e equívocos que não têm base científica. Por exemplo, que eles cospem nos transeuntes, que pisar em um animal desses é motivo de contaminação e leva à morte, que ao tocar neles surgirão verrugas e muito mais. No entanto, sua suposta capacidade de produzir veneno faz algum sentido. Se você quiser saber mais sobre esse assunto, continue lendo.

O que são os sapos?

Os sapos são anfíbios, ou seja, pertencem à classe Amphibia. Esse grupo de vertebrados reúne cerca de 8000 espécies divididas em vários táxons: sapos, rãs, salamandras, cobras-cegas e outros menos conhecidos. Em todo caso, 90% dos representantes desse grupo são sapos.

Os anfíbios se caracterizam por sua estreita relação com os ambientes aquáticos. Por apresentarem pulmões bastante arcaicos na fase adulta, algumas espécies desse grupo precisam realizar até 100% da absorção de oxigênio pela pele. Sua epiderme é altamente vascularizada e muito permeável à entrada e saída de gases. Portanto, o animal deve estar constantemente hidratado.

Em termos taxonômicos, distinguir entre “sapo” e “rã” faz pouco sentido. Costuma-se dizer que os sapos têm corpos mais rechonchudos e ásperos, e são menos vinculados à água, mas sempre há exceções a essa regra. Se quisermos nos referir aos sapos no sentido estrito da palavra, teríamos que nos referir apenas a espécies da família Bufonidae.

Os bufonídeos ou “sapos clássicos” abrangem 35 gêneros diferentes, sendo Bufo o mais conhecido de todos. Este gênero reúne 17 espécies diferentes, entre as quais se encontram as mais comuns e famosas na população em geral: Bufo bufo, Bufo spinosus e Bufo japonicus são apenas algumas delas.

Os sapos passam por uma fase larval quando eclodem do ovo na forma de girinos. Eles não têm pulmões e respiram por guelras debaixo d’água.

 

O sapo comum é um dos sapos venenosos.

Os sapos são venenosos?

Agora que você sabe um pouco mais sobre a biologia dos bufonídeos, estamos prontos para abordar a questão principal deste artigo. Embora possa ser uma surpresa para você, em primeiro lugar podemos afirmar que os sapos são venenosos. Contudo, talvez o termo que melhor se encaixe em seu potencial de perigo seja tóxico.

Todos os membros da família Bufonidae possuem glândulas parotoides atrás dos olhos, na região dorsal. Esse conglomerado glandular é responsável pela síntese de uma substância branca e leitosa rica em alcaloides, conhecida como bufotoxinas. Seu efeito é neurotóxico e serve para defesa contra predadores. As bufotoxinas são agrupadas em 2 tipos:

  1. Bufadienolídeos: um grupo de compostos químicos com estrutura esteroide. Em concentrações adequadas, podem causar bloqueio atrioventricular, bradicardia e taquicardia ventricular.
  2. Substâncias relacionadas com as triptaminas: a bufotenina é o exemplo mais importante nesse grupo. O sapo-do-rio-colorado é o anfíbio que a produz em maior concentração, a ponto de apresentar uma qualidade psicoativa recreativa.

Por todas essas razões, se um ser humano lamber um sapo, pode ter uma experiência muito desagradável. As toxinas em si não causam a morte, mas criarão dificuldades para qualquer predador que tente ingerir um espécime. Sem muitos detalhes, alguns sapos podem causar quadros clínicos graves em cães, com convulsões, salivação e arritmias características.

Ao contrário da crença popular, manusear um sapo com as mãos desprotegidas não causa o surgimento de verrugas. Em todo caso, se for necessário, recomenda-se lavar muito bem as mãos após o manuseio ou usar luvas apropriadas.

Se você colocar as mãos na boca ou nos olhos depois de tocar em um sapo, terá uma experiência muito desagradável com possíveis infecções indesejadas.

Venenoso ou tóxico?

Em inglês, a distinção entre os termos poisonous (tóxico) e venomous (venenoso) é muito comum. No sentido estrito das palavras, apenas animais capazes de inocular suas toxinas são venenosos. Assim, esse grupo incluiria cobras (dentes), escorpiões (ferrões), aranhas (quelíceras) e outros animais com estruturas especiais de ataque e defesa.

Por outro lado, os animais tóxicos são aqueles que produzem toxinas, mas não têm a capacidade de injetá-las em um predador ou uma presa. Com base nessa lógica, o mais correto seria dizer que sapos são tóxicos e não venenosos. Eles sintetizam bufotoxinas, mas não as inoculam nem as cospem. Seu efeito prejudicial só se torna aparente se um predador tenta engoli-los.

O sapo-do-rio-colorado tem uma concentração muito poderosa de toxinas. É um dos poucos sapos com os quais devemos  ter cuidado.

Os sapos não são perigosos

Nesse ponto, já não é preciso dizer que os sapos não são perigosos para os humanos. Portanto, sua perseguição em algumas áreas do mundo é completamente injustificada. Se o animal for deixado sozinho e manuseado com cuidado quando necessário, não há risco de intoxicação ou efeitos colaterais.

Infelizmente, os sapos e os demais representantes desse grupo estão passando por seu pior momento no que diz respeito à conservação. De acordo com a Lista Vermelha da UICN, 41% dos anfíbios estão ameaçados de extinção. A mudança climática já ameaça esses maravilhosos animais. Então, busquemos respeitá-los e cuidar de seus ambientes para que eles não desapareçam de forma irreversível.

Pode interessar a você...
Por que os sapos cantam?
Meus Animais
Leia em Meus Animais
Por que os sapos cantam?

Sapos e rãs cantam por meio de um aparelho de fala extremamente desenvolvido. O objetivo dessas vocalizações é a reprodução.



  • Pettit, G. R., Kamano, Y., Drasar, P., Inoue, M., & Knight, J. C. (1987). Steroids and related natural products. 104. Bufadienolides. 36. Synthesis of bufalitoxin and bufotoxin. The Journal of Organic Chemistry, 52(16), 3573-3578.
  • Cha, K., So, B. H., & Jeong, W. J. (2020). Bufotoxin poisoning that showed the sign of acute digitalis overdose in the patient of Kyushin® intoxication. Hong Kong Journal of Emergency Medicine27(3), 180-184.
  • Pejic, R., Prskalo, M. S., & Simic, J. (2020). Case Report Ocular Hypotonia and Transient Decrease of Vision as a Consequence of Exposure to a Common Toad Poison.
  • Ravalo, D. D., Gersava, J. R., Alojado, J., Achondo, M. J. M., & Gamalo, L. E. (2019). Predation of Samar Cobra Naja samarensis Peters, 1861 on the invasive Cane Toad Rhinella marina (Linnaeus, 1758) in Davao City, Philippines. Herpetology Notes, 12, 1023-1025.