A competitividade entre espécies não-carnívoras

abril 17, 2020
A competitividade entre espécies é uma realidade evidente da natureza.

Sempre imaginamos dois leões lutando para permanecer em uma manada, ou então uma hiena e um abutre brigando por um pedaço de carne, mas o que sabemos sobre a competitividade entre espécies não-carnívoras?

A competitividade entre espécies não-carnívoras

O conceito “competitividade” é muito utilizado pelos biólogos para fazer referência ao fato de que existe um espírito competitivo na natureza. Aliás, isso existe entre espécies e existe entre indivíduos da mesma espécie.

Flamingos

Por exemplo, no Colorado, há três espécies diferentes de geomiídeosGeomys, Cratogeomys e Thomomys spp. – que competem pelo uso do espaço.

Um bom indicador da competição entre duas espécies é a habilidade que uma tem de ocupar o espaço geográfico da outra quando esta se ausenta. Isso acontece com os esquilos: Eutamias dorsalis e Eutamias umbrinus. Embora a primeira seja considerada dominante, a segunda pode rivalizar com ela se as árvores da região forem suficientemente juntas.

Além disso, no Quênia, duas lebres – Lepus capensis e Lepus crawshayi – convivem lado a lado perto do Grande Vale do Rift. Nessa região, ocorrem incêndios de forma regular que alteram o habitat de ambas as espécies. Isso favorece a dominância da L. capensis, já que ela se move melhor em espaços desobstruídos. No entanto, quando o matagal volta a crescer, a espécie favorecida é a L. crawshayi.

Um exemplo de competitividade entre espécies não-carnívoras: coelhos v. lebres

Anteriormente à intervenção humana, a lebre-europeia (Lepus europaeus) não ultrapassava os Pirineus. Enquanto isso, o coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus) convivia na península ibérica apenas com a lebre-ibérica (Lepus granatensis). No entanto, com o passar dos anos, ocorreu a sobreposição da lebre-europeia e do coelho-europeu, que se espalharam por quase toda a Europa, América do Sul e Oceania. Em todos os continentes, as lebres ocupam muito mais território do que os coelhos, exceto na Austrália.

De alguma maneira, existe uma especiação alopátrica entre essas duas espécies; ou seja, cada uma prefere um tipo de habitat. Por um lado, o coelho prefere os solos arenosos e argilosos, os bosques de coníferas e os pastos. Por outro lado, a lebre prefere as terras cultivadas, os campos de cereais, as dunas e as clareiras dos bosques.

Entre os nativos das regiões rurais, sempre houve a crença de que as lebres e os coelhos se evitam. Isso pode se dever ao fato de que os coelhos, quando superam as lebres em número, as perseguem e as atormentam até que elas desmaiem. Aliás, essa é uma das razões pelas quais acredita-se que, na Austrália, o coelho supera a lebre. No entanto, apesar dos rumores, no resto do continente é possível ver ambas as espécies pastando nos mesmos terrenos.

A que se deve, então, o fato de que quantos mais coelhos, menos lebres, e vice-versa?

Mixomatose

A morte de muitos coelhos por causa dessa doença na Europa nos anos 50 atuou como um autêntico experimento. Ela permitiu demonstrar que, ao diminuir o número de coelhos, aumentou o número de lebres em vários países. Isso só pode ocorrer se ambas as espécies, de forma natural, competem entre si.

A competitividade entre espécies não-carnívoras

Comportamento

O antagonismo entre lebres e coelhos sempre foi muito comentado, tanto em cativeiro quanto na natureza. Foram reportados inúmeros casos de ataques de coelhos a lebres ao longo dos séculos. No entanto, eles também já foram vistos compartilhando terreno e comendo, sem se incomodar uns com os outros.

Os estudos demonstram que, normalmente, não existe um comportamento agressivo entre eles. As lebres não costumam fugir diante do ataque dos coelhos, e, além disso, também não evitam os territórios ocupados por eles, nem evitam os coelhos em geral. Em outras palavras, não há por que ocorrer uma competição direta. Alguns se alimentam em uma parte do território e outros na parte contrária.

Doenças comuns

Foram descritos casos de doenças que, embora sejam exclusivas do coelho, acabam sendo fatais para as lebres. Por exemplo, o parasita Graphidium strigosum adoecia originalmente os coelhos, mas foi descoberto que quando uma lebre entrava em um território ocupado por coelhos infectados, ela também era afetada.

Conclusão a respeito da competitividade entre espécies não-carnívoras

A lebre e o coelho europeus se tornaram simpátricos há relativamente pouco tempo. Assim, uma das explicações dadas ao seu comportamento competitivo original é de que eles estavam imersos em um processo de adaptação à convivência.

Por fim, dado que as suas dietas são semelhantes, a experiência nos diz que eles podem conviver perfeitamente, desde que se alimentem em diferentes áreas. No entanto, na ausência de uma espécie, a outra ocupará, efetivamente, o seu lugar.

  • Alves P, Ferrand N, Hackländer K. Lagomorph biology. Berlin: Springer; 2008.